domingo, 4 de setembro de 2005

Nasci

No dia em que morri, ninguém chorou. Nem lamentou.

Nesse dia, perdi meu nome e sobrenome, e todas as estórias de família. Perdi a ilusão de ser Alguém, muito embora sempre fosse, importante.

Perdi minha profissão, sem deixar meu ofício, como tantos fazem todos os dias, ou por vontade própria ou alheia.

Morrer lavou de mim toda a mágoa e tristeza, não por perdoar em si, mas por simplesmente compreender a banalidade que é: "estar de mau de alguém".

Foi nesse mesmo dia que perdi a ilusão de amor, não aquele puro e simples, mas esse com o qual pensamos ser impossível viver sem.

No dia em que morri, surgiu algo diferente.

Foi como se sem nunca ter nascido, jamais pudesse morrer. E assim, ri muito da minha situação. Por ter pensado ser alguém, por ter fingido tantos papéis.

Rompeu em mim o espaço infinito, e o tempo, a o tempo, cessou em fim.

Defronte às minhas mãos, sem esforço, toquei o Eterno.
Mais doce que o néctar do mel, com mais flores do que a primavera...

No dia em que morri, nasci para a vida. Brotou em mim a paz.

Ao ponto que hoje, não sei bem mesmo se morri, ou se na verdade esse foi dia do meu nascimento.

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